Leis sem homens
Há terras de homens sem leis E há terras, como a nossa, De leis e sem homens para Fazer valer essas leis. Para defender as crianças há o conselho tutelar, Conselho do quê, para quê, onde? Tutelar, do quê? É de “cumê”? Nas escolas o que se ensina é a violência, Descaso, cansaço generalizado... Reprodução de uma elite de dominação! Ensinando que nada pode mudar, Ensinando nossos meninos a não pensar. Na saúde o que mais sobra é lei. Lei para ter remédio, ler para ter doutor, Lei para ter atendimento... Uma lei que ninguém vê. Direitos dos Pacientes do SUS? SUS? È de “cumê”? E no mundo das leis sem homens O que rola solto é a maior de todas as leis Essa sim tem homens para defender A lei é assim: Poucos têm muito E muitos têm pouco... Alguém pergunta: E os homens, como ficam nesta lei? Que homens? É de “cumê”? Na terra sem homens O que sobra é dominação Uns explorando outros Em torno de uma opressão E de uma obsessão: Quem tem muito quer ter mais, Mais do que já se tem. E se aproveitam, que proveito... Que só uns poucos conhecem as leis! Leis? Que leis? É de “cumê”?
Escrito por Carla Prates às 10h41
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A ditudura do medo

Desde o início do ano, a imprensa investe no que eu chamaria de A Ditadura do Medo. Não que o sensacionalismo não fosse seu principal recurso de audiência há tempos, mas agora a coisa se intensifica e as tragédias naturais são o alvo-mor. Nada melhor do que investir nas catástrofes, que tanto amedrontam e assolam a humanidade desde os primórdios, para estabelecer uma cultura do medo. Se temos medo nos tornamos passivos e nos protegemos, é uma sensação que provoca defesa e não ataque. E será que não é isso que se quer? Instituir a passividade? Educandos me disseram que seus pais, influenciados pelas más notícias da TV, já a apontam como um dos motivos de não deixar os filhos sairem de casa. A violência e agora as catástrofes, como deixar os filhos sairem de casa em um mundo como este? E isso é tão irracional que, mesmo diante de especialistas dizendo que não há evidência de hoje ter mais tragédias do que antigamente, muitos ainda acreditam no fim próximo. Melhor mesmo ficar em casa, protegido, assistindo mais e mais televisão... mas e se um terremoto ou tsunami (inclusive provocado pelas chuvas) invandir pela nossa porta adentro? Quem poderá nos salvar em tempos tão instáveis? Só mesmo tomando uma cerveja Devassa e comemorando a falta de criatividade dos nossos publicitários, que teimam em explorar o corpo da mulher e associar esse prazer ao da cerveja, e que seja feito um brinde também a ditatura do medo e da violência. Lembrei de Brecht: "Nós vos pedimos com insistência: Nunca digam - Isso é natural - diante dos acontecimentos de cada dia, numa época em que é derramado sangue inocente, em que o arbitrário tem força de lei, em que a Humanidade se desumaniza, não digam nunca - Isso é natural - a fim de que nada passe por imutável."
Escrito por Carla Prates às 11h32
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Bolas de sabão
No sonho eu me desfaço igual bola de sabão Sou frágil e me escondo nas teias de uma sedução Não tenho eiras nem beiras só metades de contradições Que inteiras não chegam a preencher a palma de minha mão Pluct, estouro com o simples encostar da ponta de um dedo e me desfaleço no chão, espalhada... Pluct, me refaço de novo em outra bola de ilusão... Plenitude é a procura do ser que não sabe viver em vão!
Escrito por Carla Prates às 10h44
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Apaixonar-se
Entrei na sala e, como sempre, não imaginava o que me esperava. Nem eu, nem eles. Pegar uma nova turma é sempre um desafio para o educador. Por mais experiência que se tenha (o que não é meu caso, no caso), há as particularidades humanas, então o que se tentou antes não funciona da mesma forma. Não há matemática para lidar com a variáveis humanas. Mas aquela turma em particular mexeu comigo. A ideia era fazer um combinado, falar de ética, de cultura de paz. Velha fórmula, velho remendo em pano novo. Mas não deixou de ser um bom início de conversa. Cada um deu suas sugestões de "princípios de convivência" e, em várias delas, estava "tirar o Ricardo da sala". E no meio dos gritos, cantorias e dispersões, eu ia tentando fazê-los prestar atenção ao que eu dizia. Esqueci de que eu é que devia prestar atenção e não eles. Esqueci de que estava ali para aprender e ensinar ao mesmo tempo. Paulo Freire que me desculpe, mas "educador é aquele que ensina e às vezes aprende" é só parte da verdade. Gosto mais da inversão: "educador é aquele que ensina e ao mesmo tempo aprende". Daí aconteceu algo maravilhoso: eles começaram a me ensinar. O tema era... tirar o Ricardo... tirar o Ricardo... tirar o Ricardo... isso surgia a cada novo papel, a cada nova proposta. A Fernanda, 13 anos, nos salvou de um erro crasso, cometido e abençoado pelo nosso sistema: o da exclusão. "Tirar o Ricardo não adianta, a gente precisa ajudar o Ricardo a ter consciência". A Líbia emendou: "mas o Ricardo precisa querer". E eu completei: "tudo bem, mas esse não é um problema só dele, precisamos conviver em grupo, em sociedade, que bom que vocês entenderam que também são responsáveis". Enquanto isso, o Ricardo cantava a altos brados, batia palmas e fazia das tripas coração para evitar o diálogo. O que afinal ele queria expressar? Que música interna ele cantava? Qual o idioma do barulho que ele teimava fazer? Qual mensagem, seu código oculto, sua chave? Fui para casa sem saber e também sem me decidir se devia ou não tirar o Ricardo da sala. Chamei o diretor da ONG na outra aula (não adiantou, só na hora, impressionantemente). E fui numa escala de tentativas, como todo bom "desbravador" da alma humana: o educador. Até que nesta semana resolvi cantar com ele sua canção de súplica, já que ele cantava tanto precisava deixar isso acontecer (dica de uma de minhas mentoras, a Ché). E cantamos, via no rosto de cada um o sorriso porque não ficava brava nem constrangida com o que acontecia. "Canta outra, Ricardo, uma que a gente conhece". E outra, e outra. "Professora, não vai ter aula hoje", alguém perguntou. "Já está tendo", eu pensei. E na hora eu propus um exercício, surpreendentemente todos fizeram. O Ricardo e seus seguidores, ele é um grande líder como todos os talentos desacreditados (que não conseguem dar vazão a sua expressão), fizeram um rap falando sobre preconceito. Sem nenhum palavrão, uma letra impecável e a batida também. Esperaram os outros apresentarem seus trabalhos, em silêncio. Mudos, pela primeira vez, respeitosos. Só esperando a hora de darem o show. E deram! E deram! Nos bastidores, eu insisti para ver a letra da música e depois que li abracei o Ricardo. Uma educadora pergunto: "Vocês estão conquistando o garoto"?. Eu respondi: "Não, ele que me conquistou". E sempre que penso nele me emociono porque sei até onde ele pode chegar. Tirá-lo da sala seria interromper o seu desabrochar.
Escrito por Carla Prates às 20h01
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Sem-vergonha
No limite do palco Me atiro No limite do sono renovo-me não sei se sou filha, mulher ou senhora nem preciso de datas ou nomes só enxergo em seus olhos o fim da vida, que vida? se tudo é ilusão!
Escrito por Carla Prates às 23h04
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Comunidade favela
Sei que me esconde por trás do rio, Mas percebo que nem de tão longe, Nem tão perto, Seu contorno, seu gesto Preciso e mudo Quer fazer sentido... De um alguém que não quer ser chamado favela Do que ter vergonha? Por que a desonra? Se no termo favela talvez more o quilombo Por que não querer ser quem é? Quem não te considera Que conheça sua força, Sua garra, sua honra, Sua luta sem fim A comunidade favela invande os espaços, cria seus laços e não deixa de revelar o que é de humano na face da Terra O olho nos olhos, o abraço apertado, o calo declarado Nas rodas de samba e outras sem fim O passado superado por um futuro garrido Parece improvável, mas na sua alma Está o resgate de um povo, oprimido, sofrido, Mas que também acredita que neste quilombo-favela-comunidade Possa um dia ser vestido em sua humanidade A concorrer pelas ruas, becos, vias, favelas, Sua mais nobre harmonia e urgência de ser...
Escrito por Carla Prates às 23h54
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Frangalhos
Coração destroçado, esperança abatida Sei que pareco cansada, mas sou pura vida Nem quero perdão nem ser compelida Essa vida bandida me deixa sem chão Quero ser um regato para quem está perdido Sem eira nem beira No pó abatido Mas até quem precisa, precisa ser precisado E não quer minha ajuda Não entende meus atos E para quem eu escrevo? Para quem eu falo? Se não posso ser ouvida Nem muito menos ser lida e Nem pouco aprovada? Sou pura polêmica E ainda mal-dita porque não sei nem imagino como ser defendida Não é claro nem fácil Advogar o que creio Se nem mesmo eu creio Só sinto, não digo Se digo me nego Me faço e desfaço E neste cansaço Sigo abatida E uma nova estrofe começa de novo coração destroçado, esperança abatida!
Escrito por Carla Prates às 23h27
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A mulher sem coração
Havia andado léguas e léguas atrás daquela matéria. O lugar era ermo e pouco habitado, apenas umas centenas de malucos se atreviam a morar por lá. A história me chegou por uma fonte que resolveu voltar à civilização e deixar aquele habitat inóspito, largando as ruas de terra e a falta de infra-estrutura local e levando na bagagem o que prometia ser um caso único no mundo, o da mulher sem coração.
A cidade parecia mais um lugar esquecido no tempo, um elo perdido em um passado distante. Mas um repórter com a minha experiência não é presa fácil, já havia descoberto centenas de fraudes. A menina que, com a ajuda do pai, "chorava" lágrimas de cristal. A santa de pedra que vertia lágrimas de sangue. Agora viria mais uma, previsivelmente.
A tapera, toda de palha com teto forrado por pombas, correspondia àquele tipo de suspeita. Era morada padrão dos farsantes. Esperei uns 10 minutos na sala até que ela apareceu na minha frente. A luz, forte e densa, que emanava no lugar do seu coração quase me ofuscou a vista. Não havia pulsação de certo, mas a luz faiscava como fogo trepidando. Agora, me perguntava: como o corpo faz para irrigar o sangue até os outros órgãos? Por faíscas de luz, ela respondeu, adivinhando meu pensamento.
Perguntei se podia tocar, ela me olhou com ar de desinteresse, com um jeito de dizer que tanto faz, não se importava. Minha mão atravessou a luz e pôde adentrar quase até o cotovelo, o que me assustou de um tanto que não pude conter um grito de espanto. A mulher também se assustou, pulou para trás, devolvendo meu braço e minha mão imersos na luminosidade.
Não disse palavra nem ela por alguns minutos. Rompi o silêncio perguntando como ela se sentia com aquele dom único de não possuir coração e, em seu lugar, ficar brilhando toda iluminada, tal qual uma labareda. Àquela altura nem pensava mais em fraude. Ela me apontou um livro no sofá e falou com voz mansa: - Já leu "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector?
- Sim, claro!
- Me sinto como Macabéa, me identifiquei muito com ela. Oca por dentro e comum, mundana.
- Comum? Ninguém no mundo todo tem uma luz no lugar do coração. Você só pode estar brincando. Mundana?
Ela sorriu e olhou para o nada. Não encontrou as palavras para expressar o que queria dizer. Não era boa em se comunicar. Como sabia que qualquer coisa que dissesse sairia desajeitada, estranha...preferiu se trancar dentro de si, como de hábito, e não deixar o sentimento escapulir. Calou-se.
E a luz brilhou ainda mais forte, em um esplendor iluminado. Por um segundo, pensei que me cegaria. No segundo seguinte, pensei ter visto O Criador em um relance. No outro, a origem da vida. No outro, me dei conta que estava estirado no chão, recobrando-me de um desmaio súbito, enquanto Macabéa me alisava os cabelos, chamando-me pelo nome de Olímpico.
Escrito por Carla Prates às 16h48
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Estado de espírito
Claro estigma enegrecido
Brisa e neve aturdidas
Foco e raio confundido
Corante negro em fino vidro
Parca vista na penumbra
Sombra exposta na catacumba
Ponto solto no ínterim
Forte tombo em relva de marfim
Horizonte sem ponta
O oco do peito
No refúgio da lua
Espelha-se à procura...!
Escrito por Carla Prates às 18h24
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O dia do Saci
Era dia 31 de outubro. Saí na rua e era bruxa pra cá, bruxa pra lá, a festa tinha um nome esquisito, nada brasileiro... E eu tive uma idéia nacionalista, me embrenhar na mata do esquecimento e procurar o saci. Afinal, também era dia dele, apesar de poucos se lembrarem disso. Vasculhei por todo canto, passei por florestas com frondosas árvores de eucalipto até encontrar a D. Benta. Ela me indicou um caminho tortuoso e uma colina adiante. Mais uns dez metros encontrei o Visconde de Sabugosa, a Narizinho e o Pedrinho. Ao atravessar um rio de pedras escorregadias, deparei, assustadoramente, com a Cuca. Logo atrás dela, vinha o Rabicó. E nada do Saci. Devia estar magoado com tanto esquecimento... Depois de tanto andar, perguntar e fuçar, achei o pequeno menino negrinho, perspicaz como nunca, pulando sem descanso com uma perna só. Ele me olhou e estranhou, tentou se esconder. Avisei que era amigo e queria dar os parabéns. Aí ele me olhou com mais estranheza ainda e, julgando se tratar de um louco, sumiu entre as labaredas de raio de sol, deixando seu rastro pelos matagais, ora abertos, ora fechados sem a sua presença. E assim nosso breve encontro se deu, ele também deve ter se esquecido da gente, afinal não me reconheceu. E nem a gente se reconhece mais diante de tanta palavra esquisita, tanta cultura que não é nossa, não é da nossa gente!
Escrito por Carla Prates às 18h40
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SEM-SAPATO
Ele vivia descalço. Não porque se incomodasse com algo lhe apertando os pés. Nem porque era algum tipo de crença, religião, promessa. Não usava sapato e ponto. Escondia dentro de si o segredo para tal mistério.
E era só ficar parado na esquina que alguém já pensava que se tratava de um mendigo e vinha lhe dar uma esmola. No banco a porta detectora de metais travava sempre que ele tentava atravessá-la. Ele não tinha metal, mas também não tinha sapato e o guarda do banco, perito em discriminar, discriminava-o como uma possível ameaça. E travava a porta assim que o via. Afinal, é convenção social usar sapato. Homens de bem usam sapato, quem está sem sapato não é de bem, afinal.
Houve um dia em que lhe expulsaram de um restaurante, mesmo ele tendo dinheiro para pagar a conta e muita fome. - Sem sapato, não se pode comer aqui, profetizou o garçom.
No cinema, nem da bilheteria adiante conseguiu passar. No teatro, nem pensar. À escola, tentou ir, mas a diretora logo lhe cobrou conduta obrigatória do colégio: calçar sapatos. Tinha dinheiro e, mesmo tendo necessidade de cultura, educação e lazer, nada se podia fazer!
Tentou assistir a um jogo de futebol no domingo, mas logo lhe avisaram: para subir nas numeradas só de sapato! Até seus vizinhos não se cansavam de lhe cobrar os pés calçados. – Parece até coisa de índio viver sem sapatos, veja só – proclamou D. Albertina, a vizinha da esquina.
Ninguém lhe respeitava, admirava ou se enternecia por ele. Namorada, nunca teve; emprego, nem pensar. Isso tudo é coisa para quem tem sapatos na vida!
Uma vez ouviu falar de uma tribo indígena que nem sequer sabia o significado da palavra sapato. Até se lembrou da D. Albertina. E daí arrumou suas trouxas sem pestanejar e seguiu estrada, sonhando em ser aceito por lá. Afinal, não podia mais viver em uma sociedade na qual a dignidade humana valia o mesmo que um par de sapatos.
Chegou a tribo depois de 100 dias e 100 noites de peregrinação, e o cacique foi logo lhe avisando que estavam a par da modernização. Que índio que não se civiliza nem um pouco vive à margem da sociedade e então todos ali tiveram que se dobrar a alguns costumes dos “cara-pálidas” e, portanto, para morar na tribo, a partir de agora, só vestindo sapato!
Escrito por Carla Prates às 17h57
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MANIFESTO
Texto criado pelos meus alunos. Merece ser publicado!!!
Somos estudantes da Oficina de Comunicação da comunidade de Paraisópolis. Nós queremos mudar a forma como somos mostrados na mídia. Por exemplo, os jornais só mostram o jovem que mora na periferia envolvido em crimes, tráficos, roubos e mortes. Quando o jovem aparece na mídia muitas vezes está relacionado com valores negativos, como a violência. Ou é tratado como consumista e inconseqüente e todos esquecem do nosso valor, que podemos fazer a diferença e até mudar o mundo. Hoje em dia, o jovem já pensa no futuro, visando oportunidades no mercado de trabalho. Já assume muitas responsabilidades, mesmo sem se descuidar da cultura no geral e do lazer.
Escrito por Carla Prates às 17h44
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Cena de infância
Bem que tinham me dito: "voar é para quem tem asa". Mas eu não acreditei. Não possuía asa, mas tinha imaginação e muita coragem. Além do impulso de querer sentir mais e mais aquele friozinho na barriga, o vento soprando no rosto e o mundo girando rápido, até a vista embaçar. E o dia de voar havia chegado. Decidi que seria ali, na ladeira mais disputada pelos meninos de skate! Minha mãe e eu tínhamos acabado de sair da padaria. Ela abraçava os pães, quentinhos, e nem sequer poderia supor que eu tinha planos emocionantes para aquela descida de tirar o fôlego com chão de paralelepípedos. A bicicleta começou a embalar devagarinho e a velocidade crescia à medida que o íngreme invertido se acentuava. Soltei subitamente a mão do breque e abria as pernas. Nada mais me seguraria. O horizonte estava à minha frente. Voei tão alto que peguei uma nuvem e um passarinho, companheiro, me contou segredos. Não dava mais para abortar o vôo, em pleno curso. Só não consegui alcançar o infinito por causa do destino. Um carro cruzou com a toda a velocidade a rua que cortava a minha ladeira voadora. Do céu, ainda pude ver o semblante de minha mãe, aterrorizada. Em uma lucidez oportuna, percebi que era hora de voltar. A bicicleta, desenfreada, voou então e eu caí do céu. No dia seguinte, com os cotovelos e joelhos todos estrupiados ouvia, um por um, o sermão de toda a família. Sou caçula! Mas de nada adiantou, ainda dentro de mim, guardada a sete chaves, permanecia a plenitude de ter criado asas, percorrido o céu e quase apalpado o infinito. Até hoje solto o freio da bicicleta nas descidas em busca de voltar a ser criança!
Escrito por Carla Prates às 10h56
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Véu
Texto da Oficina Literária
Balanço na sombra da palmeira,
Ao léu,
O vento bate, sorrateiro,
E neste vaivém cubro a lua desnuda.
A cachoeira, transbordada,
Está noiva e insiste em se casar.
Assim se veste da minha transparência,
Para encontrar as sete-quedas no altar.
Enche-se de alvéolos
Escondida pelo orvalho da manhã
De suas águas, apenas neblina posso ver
E no fundo, só há mistério.
Escrito por Carla Prates às 16h57
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Pitadas de candura
O plano era simples, pelo menos para aqueles dois cúmplices: empacotar a doçura de Helena. Em todo aquele reino, e mesmo fora dele, nunca se vira tanta candura. Ao rei, atento à peculiaridade daquele fato, não sobrou outra alternativa senão fazer o que precisava ser feito. E Helena concordou. Ela não era alguém de se deixar levar à revelia. Claro que colaborou o fato de que Helena, além do dom da doçura, também possuía a virtude da vaidade. E quem no mundo não se tornaria célebre após ser empacotado? Então, o pacto estava feito. O rei a empacotaria, claro, com carinho. Helena se deixaria empacotar de bom grado. E o reino ganharia pitadas de doçura, pois ali imperava a amargura. O remédio seria Helena!
Pensando na eternidade e nobreza de seu ato, Helena nem se importou com o incômodo de seu corpo dividido em pacotes. Era apertado e sem ar por ali. Além de predominar uma só paisagem, o branco. Ainda bem que era sua cor favorita! Mas nem todas essas provações diminuíam sua doçura. De tão doce, Helena melava! Mesmo distribuída em pacotes.
- Tudo bem, Helena?, perguntou o rei.
- Sim, disse ela, um pouco cansada e ainda estrelando candura!
O rei continuou seu trabalho árduo e seguiu empacotando o melaço por toda aquela noite. Quando acabou, despediu-se da heroína, que estava exausta para valer e adormeceu em seus pacotes. O rei também foi para a cama, com ares de missão cumprida. Na manhã seguinte, os sentinelas foram dispensados da tarefa de vigiar as agruras do reino. Não era mais preciso!
Escrito por Carla Prates às 13h32
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